A arte como mediação - Em busca das palavras que não nasceram
O que acontece quando o sentir não tem nome, nem forma, nem cor definida? Não tem começo e nem fim?
O que acontece quando o sentir não tem nome, nem forma, nem cor definida? Não tem começo e nem fim?
Essa pergunta nasce da obra de Marina de Oliveira Costa “De que cor será sentir?”
Na clínica, sabemos que os vínculos afetivos são a base da estrutura do eu. Mas quando algo falha aí, quando o trauma interrompe esse desenvolvimento, como seguir?
No processo analítico, especialmente com pacientes no campo da psicose, a experiência pode acontecer para além da palavra. Ela se dá no encontro transferencial, no campo relacional, e também na imagem.
É aí que a pintura e o desenho entram em cena como dispositivos poderosos.
Através deles, o paciente pode regredir a estados de dependência primitiva e reviver, ali na tela, cenas que ficaram congeladas no tempo. Mas agora, diferente do trauma, há um outro olhar: o do analista, o da relação transferencial e o da própria imagem que vai nascendo.
A tela funciona como uma passagem para o que Winnicott chamou de espaço potencial: aquela zona de ilusão entre o que é criado por dentro e o que é percebido lá fora. Um lugar onde a lógica é a do sonho, não a da realidade dura.
Ao pintar, o paciente se torna espectador de si mesmo.
O que antes era recusado, negado, sem contorno agora ganha figura. A imagem revela. E o que era invasão vira expressão.
Na psicose, a consciência é muitas vezes inundada por imagens sem controle. Mas quando essas imagens encontram a tela, elas ganham limite. O sem-limite vira forma. E o que ameaçava, agora pode ser olhado.
De que cor será sentir? Talvez a resposta esteja aí: na possibilidade de, diante da própria criação, dar cor e contorno ao que antes era amorfo.