Saúde mental e precarização do trabalho
Não, não é possível ter saúde mental em um sistema que adoece — porque saúde mental não é apenas um estado individual, mas uma condição coletiva que depende de direitos, dignidade e justiça social.
Um estudo da Ação da Cidadania (03/04/25), intitulado “Entregas da fome”, revela que:
- 32% dos entregadores no RJ e SP vivem em insegurança alimentar;
- 40% trabalham 60h/semana sem folga.
Jornadas exaustivas, falta de direitos e riscos à saúde física e mental são realidade para muitos, não apenas aos trabalhadores de aplicativo. Porém, o sofrimento psíquico é frequentemente reduzido a duas visões problemáticas:
- Uma perspectiva hegemônica na área da saúde que tende a reduzir os transtornos mentais a uma espécie de desequilíbrio químico, tratando o sofrimento por meio da medicalização.
- E o imaginário social neoliberal, que atribui o sofrimento a escolhas pessoais erradas ou à má gestão das habilidades emocionais, ignorando estruturas sociais e econômicas opressoras.
A questão é a falta de reflexão sobre como o sistema em que vivemos e a forma na qual ele é organizado também adoece as pessoas. Além disso, o processo de individualização produz uma ruptura no senso de coletividade e de solidariedade da classe, o que também contribui para o adoecimento psíquico dos trabalhadores.
Saúde mental não pode ser apenas sobre força de vontade, resiliência, ou auto cuidado, mas principalmente sobre como a exploração, a falta de direitos, opressões e a pressão para produzir no dia a dia destroem pessoas enquanto um pequeno grupo enriquece pelo mesmo motivo.
O psicólogo, portanto, não pode se colocar como um técnico neutro e descomprometido com a realidade social e política, visto que este contexto é justamente produtor e reprodutor de adoecimento psíquicos/físicos.
✨ A questão, então, é: é possível ter “saúde mental”? *Quem* pode ter a tal “saúde mental”? Quem, hoje, pode se dar ao luxo de cuidar de si?